Dos presidenciais alívios<br>e outras estórias
Vimos na televisão que o senhor Presidente Cavaco foi em visita oficial à Bulgária poucos dias depois de na cidade de Lamego ter falado ao País e cumprido a tarefa de distribuir condecorações a quem, naturalmente, as merece. Permita-se que se registe, de passagem, que esta já tradicional cerimónia faz lembrar a alguns a canção em que a dupla Rui Veloso/Carlos Tê desabafa: («…Eu nunca vi pátria assim/ pequena e com tantos feitos.»). Quanto aos agraciados, é claro que todos mereceram as medalhas e os colares que lhes couberam, mas convém destacar entre todos o senhor costureiro da primeira dama, seguramente autor de uma obra que granjeou para a nossa Pátria admirações internacionais. Temos, pois, que escassos dias volvidos partiu o senhor Presidente para a Bulgária enquanto por cá decorriam os últimos dias anteriores à decisão de privatizar a TAP, sabendo-se agora que o senhor Presidente não partiu descansado: havia oposições, haveria dúvidas, os candidatos à compra eram poucos, porventura acastelavam-se ameaças e incertezas, não sabemos. Sabemos, isso sim, que o senhor Presidente ia preocupado, oprimido. E sabemo-lo mais uma vez graças à televisão, porque ela nos trouxe o senhor Presidente em imagem e som, mal saíra do avião e pisara solo búlgaro, a confessar-se «aliviado», confidência que até pode ter sido encarada com naturalidade por ser óbvio que um avião moderno tem todas as comodidades. Percebeu-se depois que o alívio presidencial resultara de ter sabido entretanto que a tão almejada privatização da TAP estava finalmente decidida. E é de crer que o alívio do senhor Presidente assim anunciado desceu sobre o povo português como um bálsamo, pois bem se sabe como o senhor Presidente é querido e admirado pelos seus súbditos, com perdão desta palavra talvez excessiva, como nenhum outro Presidente desde 74 ou mesmo desde 1926.
Um douto alívio
Entretanto e passadas poucas horas, aconteceu na TVI o habitual comentário do professor Marcelo que, como seria natural e mesmo inevitável, se referiu à aprovada privatização da TAP e às condições em que ela se realizará. Falando do valor por que a TAP será vendida, dez milhões de euros, o professor sublinhou a sua insignificância, tanto e de tal modo que disse ser como se a TAP fosse vendida pelo valor simbólico de um euro, isto é, praticamente dada, esclarecimento que coloca o alívio do senhor Presidente num contexto que deveria ser-lhe embaraçoso se o senhor Presidente fosse pessoa para se embaraçar com tais coisas. Aliás, já tempo depois do seu desembarque em terra búlgara, o senhor Presidente continuou a aliviar-se, digamos assim, e, aliviando-se, resolveu tecer considerações forçosamente doutas acerca da situação da Grécia, por sinal então ali bem perto. Poderá talvez dizer-se que não foi uma iniciativa excessivamente elegante e de acordo com as mais elementares regras da diplomacia ou mesmo da cortesia corrente: se a ética recomenda que um alto dirigente se coíba de comentar o que ocorre no seu próprio País quando se encontra no estrangeiro, é óbvio que ainda menos deve opinar sobre a situação de um país terceiro. É sabido, porém, que aos grandes sábios e aos grandes santos são concedidos direitos que o comum das gentes não tem e, assim, é de crer que esta excepcionalidade se aplica ao senhor Presidente. Aliás, é também de crer que naquela matéria, que era o da situação grega, o senhor Presidente estivesse oprimido e sentisse a necessidade de se aliviar. Aliviou-se, pois. Para alegria dos portugueses que muito se divertem com os alívios em que o senhor Presidente tem sido abundante e que, para nossa melancolia, vão findar-se nos princípios do próximo ano. A questão é que é altamente improvável que voltemos a ter um senhor Presidente assim. E, com a vida triste que levamos, bem podemos ir sentir-lhe a falta.